O peso da palavra cantada Postado em 01/03/2003 12:00.

Sérgio Pimenta estava coberto de razão quando escreveu que "as palavras não dizem tudo, mesmo que o tudo seja fácil de dizer". Falar muito e ter pouco a dizer tem sido uma especialidade que lamentavelmente a música popular brasileira tem desenvolvido. Para o povão, a boa letra de música tem sido a que deixa nas entrelinhas um gosto amargo de malícia. Recentemente o Brasil chorou copiosamente a tragédia da morte dos "Mamonas Assassinas". Foi estranho acompanhar pela TV cenas que beiravam a tragédia e a comédia, como a cena de uma mãe chorando, tendo ao colo uma filha de pouco mais de 3 anos, cantando uma letra que me recuso a repetir. A cada carnaval que passa, novas aberrações musicais têm surgido. Canções e formas de danças populares tem deixado nas entrelinhas uma mensagem lasciva e perniciosa, mas apesar de tudo, têm tido o pleno apoio dos veículos de comunicação.
Mas será que falar nas entrelinhas é sempre ruim? claro que não. A palavra falada tem demonstrado seu poder destruidor e também abençoador ao longo dos tempos. Com a massificação dos veículos de comunicação, temos sentido o peso da palavra cantada. A melodia complementa com brilho as cores e nuances dos versos e das prosas, além de facilitar em muito a apreensão do que foi dito. O poeta popular Gilberto Gil, em sua música, Metáfora, cantou: "uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz "lata", pode estar querendo dizer...". Melhor do que qualquer ser humano, Jesus foi um expert em falar o suficiente para que todos entendessem sua mensagem e também deixou nas entrelinhas mensagens que vão além dos séculos. Falar o suficiente, fazendo com que o outro pense, valoriza o outro e faz com que este se interesse em saber mais sobre tudo que foi dito.
Por sorte, quase que como uma reação involuntária a esse estado de coisa, muitos artistas cristãos tem mansamente transmitido em versos aquilo em que acreditam e que vivenciam na pele. O compositor Edilênio falou com mestria quando escreveu ... são palavras do silêncio que esperei ouvir / no escuro sem refúgio eu me vi tão só.../ Suas palavras são asas que amparam o coração com perdão, com amor (Palavras que Amparam/Raizes). João Alexandre, um dos melhores compositores do gênero gospel, ilustrou com detalhes os dilemas do homem quando disse... Vê! teus olhos no espelho, por fora um herói, por dentro um ladrão... Viu? desacreditado, no mundo queimado, por ser o que é / Vai! longe de teu pai, pensando e chorando sua falta de fé. João Alexandre, como tantos outros, tem procurado fugir ao lugar comum e, valorizando a inteligência de quem escuta suas composições, tem pregado o evangelho com a profundidade que lhe é peculiar.
Prá finalizar, deixamos na íntegra a letra da música Águas, como um bom exemplo de que se pode sair do lugar comum e falar o suficiente para que todos entendam quem é a água da vida, descrita no livro de João.
 
Águas (Rod Mayer e Estevão Hernandes)
Água pura que desce do céu / todo o planeta inunda / encaminhando saúde a terra fecunda ./ Água limpa que a vida traz / rios e suas nascentes / lagos, cascatas e mares / cada dia novamente./ Caminhos ocultos entre os ipês, perobas e igarapés./ Não importa por onde ela passa / porque onde chega a sede não pode permanecer./ Ao olhar-te cristalina, te pergunto de onde vens./ Tua força me assusta, tua beleza me emudece, teu mover me traz canções./ Água pura que desce de Deus / no ventre do homem transborda / traz em suas margens e cura, e a paz que conforta./ Água viva que é Jesus, vinda do trono de Deus / um turbilhão de virtude / prá todos que são seus.
João Inácio
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