Dia do evangélico Postado em 30/10/2004 12:00.

Legal, enfim temos o dia do evangélico. E agora?


No último dia 30 de Novembro mais uma vez me deparei com inúmeras perguntas de colegas que professam outras religiões: porque hoje é feriado? A resposta vem na ponta da língua: Você não comemora feriados católicos e todos paramos nesses dias? Mas o problema é que essa pergunta, como se fosse resposta, não responde a primeira pergunta e confesso que também tenho minhas dúvidas: porque existe um dia do evangélico? Porque todos têm de parar suas atividades nesse dia?

 

Por ironia do destino, como era feriado, fui ao cinema ver o belíssimo filme, Lutero, e fiquei pensando no que aconteceu com a cabeça daquele monge para por em risco a própria vida? Sim, Lutero rompeu com as atrocidades religiosas da época, para denunciar a associação espúria entre Estado e religião, e também a manipulação da mente dos incautos por conta das verdades religiosas. Na verdade, Lutero levou sua fidelidade à Deus às últimas conseqüências e, por causa desse ato, que para muitos era pura loucura, toda a história global foi modificada.

 

O filme transcorria e eu ainda estava em dúvida: porque existe um dia do evangélico? Porque todos têm de parar suas atividades nesse dia? E foi aí que eu me lembrei da explicação que ouvi de um certo pastor: bem, esse feriado serve pra que reflitamos sobre a vida e façamos nesse dia coisas que denotem nossa fé. Yes, que bela resposta!

 

Então compreendi onde muitos querem chegar ao apoiar esse estranho feriado: temos que dominar o mundo! Somos a versão gospel do Pink e do Cérebro. Vamos mostrar que nós, evangélicos, temos uma fé mais prática, mais adequada aos novos tempos, que faz o homem mais feliz ou como muitos gostam de falar, sem refletir no sentido real do versículo, temos que ser "cabeças e não, caudas".

 

E fiquei pensando como tem sido muitas dessas demonstrações do "poder evangélico" por aqui, nas terras brasilis? Vejamos: A CPI da Nike, aquela que investigava a possível associação da empresa de produtos esportivos com escândalos dentro do futebol, foi abafada, na Câmara dos Deputados, pela dita "bancada evangélica".

 

Eu  e Ranúzia, certa vez íamos tocar em um show gospel, em São Paulo, e descobri que, num dado momento daquele mega evento, um "homem de Deus", o Orestes Quércia, que era candidato a presidente da república, ía dar uma palavrinha para o povo de Deus e, é claro, pedir nosso voto. Não aceitamos tocar no evento e por ironia do destino, o pastor que organizava o evento hoje é processado pela receita federal, por sonegação de imposto e lavagem de dinheiro.

 

Mas você já observou que, assim como nesse evento, no dia do evangélico, quase sempre, ao final dos shows gospel e passeatas, tem sempre um candidatozinho a vereador, prefeito, governador, um Garotinho da vida, sendo apresentado como um ungido de Deus que vai limpar a cidade da escuridão, na próxima eleição?

 

A quantidade de atrocidade evangélica tem crescido na mesma velocidade da nossa imaginação. Se Lutero estivesse vivo, veria, horrorizado, como nós, os evangélicos brasileiros, temos visto, inertes, gente que faz show pirotécnico com o diabo, vende água do rio jordão, óleo santo, e pastores que tratam ovelhas como se fossem gados. Se Lutero ainda estivesse vivo, certamente teríamos uma reforma pra tentar coibir os desvios dos evangélicos no Brasil.

 

Queira Deus que, já que criaram esse estranho feriado, ao menos os verdadeiros cristãos se horrorizem com essas barbaridades que têm sido feitas e não compactuem com coisas que não deveriam ser feitas em dia algum, muito menos no "dia do evangélico".

João Inácio

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