Festival - Promessas Postado em 19/12/2011 01:10.

 

Hoje, o tempo estava chuvoso, liguei na globo pra assistir ao tal festival “Promessas” e como achei as primeiras músicas fraquinhas postei um comentário no Facebook: Estou assistindo na Globo ao show gospel "Promessas" e vou escrever pra eles: “Por favor, PROMETAM, nunca mais passem isso de novo. Pronto, mudei de canal”.

Não o fiz com o intuito de irritar quem quer que seja, mas como muitos não compreenderam meu ponto de vista – e nem poderiam – preferi aqui melhor me expressar. Facebook é lugar de piadinhas e comentários rápidos e por isso nem sempre o que lemos pode e deve ser levado a sério. Não sou contra a aparição em si de artistas cristãos seja na Globo ou qualquer emissora. Julgo também que a forma como os artistas "mais populares" conseguem ser ao menos entendidos pelos mais simples  é algo que os mais ortodoxos (como eu!) ao menos deveriam parar e refletir. Contudo, antes de você se irar e pecar pensando em me trucidar, quero deixar bem claro que esses escritos são apenas minhas percepções sobre um determinado assunto, nada além disso. Por isso, pra não ficar apenas no “gosto ou não gosto, quero aqui explicar algumas das razões que me motivaram a assistir um pouco do evento com tanto desdém.

1. Minhas ressalvas quanto a “movimentos evangélicos” 
Durante algum tempo participei de alguns desses eventos e hoje percebo que quase sempre são exercícios de religiosidade e visam mais a demonstração de poder de líderes e igrejas que necessariamente o engajamento para sensibilizar outros quanto aos princípios de Deus para que estes façam parte das nossas leis e assim tenhamos uma sociedade mais justa. Por exemplo: À despeito de suas crenças, deveríamos ser os primeiros a jogar pedra nos atos de corrupção e apoiar os que os combatem. Que a corrupção, por exemplo, é um dos males dos nossos dias ninguém duvida, mas não me recordo de ter visto qualquer faixa na plateia dizendo “Dilma, apoiamos que você demita os corruptos” ou “Presidente Dilma, as famílias tem o direito de educar seus filhos conforme suas crenças”, etc. Fico ressabiado, pois já vi um pouco de perto como essas coisas funcionam. Claro, ainda bem que nem sempre é assim!

Há anos éramos contratados de uma gravadora evangélica e iriamos tocar em um megashow. Vibrei com a possibilidade até saber que num momento especial do evento um pretenso candidato à presidência da república iria parar os shows "e dar uma palavrinha" para o povo de Deus. Não topamos, saímos da gravadora (não fizemos qualquer falta, pois nossos discos vendiam ridiculamente pouco...rsrsrs), tempos depois o tal candidato foi divulgado como um dos grandes corruptos daquela cidade e o líder da igreja que promovia o tal evento preso por problemas de sonegação de imposto. Minha intensão erá correta, mas o que havia por trás era complicado e nossa alternativa foi de coadunar. Claro, há os que não vêem qualquer tipo de problema com essa associação, mas não é nossa opção.

A propósito, você já se perguntou porque será que uma Prefeitura promoveu (e gastou muito dinheiro público) em um evento de tal magnitude? Porque será que a Globo exibiu o tal evento quando na totalidade das suas novelas os “crentes" sempre são caricatos, estúpidos, tolos, etc.? Há alguns anos a imprensa denunciou que aqui no DF uma parcela significativa do dinheiro público era gasto com festas de igrejas evangélicas e, claro, repletas de apresentações de shows evangélicos. Acho que as bandas, se soubessem disso, deveriam ter suas ressalvas ou mesmo não coadunar com tal disparete. Mas para ter tais preocupações seria importante que os músicos soubessem  previamente dos riscos ou ao menos fossem informados em suas igrejas sobre as nuances desses eventos. Com isso, aproveito para introduzir minha segunda ressalva.

2. Música, Músico e utilitarismo
Houve um tempo que os músicos cristãos não eram chamados de artistas e era comum a preocupação de estarem em cadeias, hospitais, praças, escolas e as conversões eram os cachês da época. Claro, não posso julgar quem quer seja, sei que joio e trigo estão lado a lado, mas é patológico e evidente que muitos destes grupos estão na contramão da vontade de Deus expressa na bíblia, pois fazem parte de um sistema maior que também está adoecido… Mas não o denunciam ora porque não sabem e ora porque são beneficiados pelo mesmo.

Não sei bem como surgiu isso, mas ao contrário da música na vida do crente ser uma expressão, um resultado de sua vida devocional, observe como ela tem sido demandada nos cultos como um agente, tanto por parte dos líderes quanto dos membros e músicos.

Por agente quero dizer que a expectativa reinante é de que a música promova algo e por isso tem assumido assustadoramente uma função libertária, mística e, por consequência, manipulatória. Será que você já ouviu expressões do tipo “toca uma musiquinha aí enquanto fazemos um apelo de conversão ou recolhimento de oferta” ou “o louvor liberta” ou mais um monte de outras situações que denotam que a música “amolecerá” o coração do fiel em prol de um objetivo? Cada vez que vejo isso fico incomodado, pois me sinto literalmente manipulado. Nossa associação cerebral capitalista tem feito associações perigosas do tipo: se eu fiz isso e deu certo (houve conversão) então Deus abençoa. Mas essa lógica é falha e perniciosa.

Creio que a música como resultado de um relacionamento impulsiona o fiel a cantar em qualquer lugar (ex: At 16:25), à despeito da plateia ou quantidade de pessoas. Mas a coisa não tem sido muito assim e tenho tido conhecimento de que muitos desses grupos cobram até R$ 20.000,00 pra apresentação numa igreja... E ELAS PAGAM! Há pouco tomei conhecimento que uma igreja num pequeno bairro do DF pagou R$ 15.000,00 de cachê pra uma banda famosa. E eu fiquei pensando: com esse dinheiro daria pra igreja contratar um ou mais professores ao longo de um ano pra dar reforço escolar, atendimento educacional, visão correta do evangelho, etc. Faça você mesmo a experiência e ligue para algum empresário desses artistas e verão de perto o que estou dizendo. Como os cultos tem tendido a um espetáculo, não é de estranhar que os membros das igrejas digam “gostei ou não gostei” da música, do sermão, da forma como serviram a ceia, como o boletim foi escrito, etc. Ou seja, percebo que inconscientemente os líderes estão preocupados em satisfazer clientes que, por sua vez, “querem mais e mais” senão não darão mais suas ofertas ou mudarão pra outra igreja onde ele encontre mais “poder” e sintam-se mais saciados. Sei que estou reduzindo um problema complexo nos dias atuais, mas minha observação é de que Mamóm entrou firme nas igrejas e sem que tenha tal aparência.

Se os tais artistas agora globais compreendessem a importância do momento propiciado pela poderosa Globo se esmerariam e executar nem tanto os seus sucessos, mas mostrariam composições que melhor expressasse em quem eles afirmam crer. Mas logo de cara ouvi coisas que os crentes – ao menos em tese – compreendiam o que era cantado, mas os leigos não. 

Além disto, a pobreza dos assuntos abordados era deprimente, pois reduziam o evangelho em dois ou três tópicos (Eu sou um adorador, Deus vai realizar algo na sua vida, Deus tem poder pra te dar..., etc.). Não vi todo evento e você que assistiu, please, refrigere minha alma: Quantas músicas foram proféticas e denunciaram a ação das polícia/milícia que oprime os pobres nas favelas do RJ? Quantas exaltaram que a natureza é um bem dado por Deus e que deveria ser primariamente cuidada pelos fiéis? Quantas disseram que os crentes devem ser honestos e que suas justiças devem exceder às dos fariseus? Posso estar errado, mas o sentido geral era de adoração a um deus que mais se parece com papai noel e que uma vez "satisfeito e adorado" dá presentinhos pros seus filhinhos.

Como o que vi tinha uma visão restrita, uma comunicação melhor empregada em um templo, só me restava uma alternativa:


3. Entretenimento
Não sou contra o “entretenimento gospel” e acho que essa é uma dimensão pouco refletida nas igrejas. Não me incomodo em ir a um teatro e pagar para assistir a um artista cristão executando sua obra ou mesmo assisti-lo pela TV. Pelo contrário, quando a coisa é boa não apenas faço questão de pagar como recomendo para outros.

Mas se o espaço em discussão é o entretenimento – e é isso que a Globo e demais emissoras primariamente oferecem – também me incomodou o evento porque o oferecido era de baixa qualidade.

Os arranjos, interessantes e é legal ver como temos crescido nessa área. Mas as letras, rasas, sem dimensão e profundidade psicológica/bíblica. Os figurinos, ridículos. As performances (afinação, estilo musical, etc.) questionáveis. E por aí vai...

Há quem goste e em nada me chateia se você aprecia os grupos que por lá se apresentaram. Particularmente fiquei desapontado, pois sei que existem músicos e artistas cristãos muito melhores que os que lá se apresentaram (pode estar certo disso!).

Fica uma pergunta que é comum nesses casos “E Deus não usa?” Claro, Deus é Deus e faz o que bem entende à despeito das nossas vontades e limitações. Mas o mesmo Deus orientou que nos esmeremos em fazer o melhor qualquer coisa que façamos e o pouco que vi no evento achei deplorável. Sei o quanto fascina o fato da coisa ter acontecido na Globo, mas tenhamos em mente que Deus nunca dependeu de nada além dEle pra ser Deus e fazer cumprir os seus planos e propósitos.

Há uma cantora que eu sempre gostava quando ela se apresentava, mas passei a admira-la muito mais quando a vi cantando no leito de morte de algumas pessoas. Não tinha plateia, mas não tenho dúvida alguma que ao menos 3 pessoas fundamentais estavam presentes e satisfeitas. Quando os artistas cristãos compreenderem a importância que há em abrir a sua boca em favor do pobre, do necessitado (independente do seu estado social), da viúva, do que sofre, etc., enfim começaremos uma revolução também por meio da arte e sem que necessariamente estejamos na Globo.

Não queria ser tão longo, mas como disse, o meu “desgosto” estava pautado em vários aspectos e esses são apenas alguns que refletem o que penso sobre o assunto.

Que Deus nos abençoe, realize em nós suas promessas e nos use para ser a resposta de muitos que por elas esperam.

João Inácio
BSB 19/12/2011
 

 

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