MONÓLOGO DE UM PESCADOR
João Inácio
Olha mar, vim aqui te dizer
que não vou voltar a pescar.
Não vou mais querer pegar
aquele velho peixe que tanto sonhei pescar.
Pensei que pescar fosse o meu velho destino.
Um destino onde pescador e peixe
se alimentariam e muitas vezes,
se matam.
Há quem diga que é loucura
querer impedir que este pescador
goste de sair para pescar.
Mas chega uma hora que ele cansa e chora,
por não pegar um peixe maior que seu próprio mar.
Acreditei que não era errado querer mudar o rumo do mar.
Que não era errado querer sorrir com a pureza de quem
gosta de ver a lua se espelhando nas águas do mar.
Errado é esperar e ver o tempo passar.
É poder, saber fazer e ficar vendo o sonho calar.
É mirar os horizontes com os olhos mortos.
É sequer buscar o sonho que sempre sonhei.
Olha mar,
vim aqui te dizer que não vou voltar a pescar
aquele velho peixe que tanto sonhei pescar.
Cansei de dar murro em ponta de faca
e esperar que ao menos a faca mudasse seu corte.
Cansei de cortar minha mão pescando um peixe
maior do que posso pescar.
Cansei, porque o que esperava,
era que duas outras mãos
me ajudassem a tirar um grande sonho do mar.
Estou cansado e, como tantos, chego a me perguntar:
será que existe peixe? Será que existe mar?
Talvez seja este o segredo!
Talvez este peixe só saia do mar
pelas mãos do Senhor do mar.
Quantas vezes gritei e pedi sua ajuda.
É duro ver que o peixe não vem.
É duro ver que o peixe segue para o norte
e você guia meu barco para o sul.
Por tudo isso mar, é que eu não vou voltar a pescar
aquele velho peixe que tanto sonhei pescar.
Já não quero lançar a linha
até não ter mais linha na mãos.
Pescar peixes pequenos, tolos, ingênuos,
peixes que só eu consegui pescar.
Vim pra te dizer que estou
até sem forças pra voltar a pescar.
A dor calou a vontade de ter o peixe nas mãos.
Acabou o vigor de poder ir e voltar do mar.
Mas se você leva meu barco para o sul,
um lugar onde nunca quis estar.
Um horizonte tão longe
do sonho que um dia sequer pedi pra sonhar,
contra você meu Deus,
você que e o meu "Grande Mar",
não tenho razão e nem coragem de lutar.
Não há quem verdadeiramente se banhe em suas águas
e esqueça do vigor que só o seu sal pode trazer.
Por isso, Jesus, você que e o meu grande "mar de amar".
Mesmo ilhado nos cais dos fracassos,
em mim o pouco que resta é a luz da Sua esperança.
Espero que talvez assim, indo no rumo da sua maré,
indo como uma pedra que cai até o fundo do mar,
eu compreenda que e melhor estar só com você.
Talvez estando nu e morto, bem dentro do mar,
eu me encontre profundamente e eternamente com você.
vazio de sonhos, cheio de lágrimas e pleno de você.
