MONÓLOGO DO FUNDO D´ALMA
João Inácio
Preocupado com o situação dos mendigos e meninos de rua,
frente ao frio que assola o país. 29/6/94, 08h13
Olha, moço,
o frio de junho chegou
e com ele veio a dor
que não vai embora com o sono.
Essa dor me lembra, a cada instante,
que eu ainda existo.
Ou será que apenas resisto?
Olha, moço,
na verdade um frio como esse
chegou desde que eu nasci.
Sei que sou feio e cheiro mal.
Sei que sou o retrato da miséria
e até que agrido seus olhos.
Mas no fundo, bem mais fundo
que você possa imaginar,
hoje já não me importa ser feio,
o frio chegou e só não quero
me sentir mais frio do que já sou.
Olha, moço,
sei que você diz
que eu preciso de Deus
pra aquecer meu coração,
Mas eu quero os dois.
Preciso de Deus como roupa
pra minha alma,
e panos, trapos, que sejam,
pra aquecer meu surrado corpo.
Olha, moço,
não sou e nem pareço com Deus.
Mas pelo amor d'Ele,
me aqueça um pouco nesse frio.
Basta um velho agasalho.
Pouco importa se vou parecer
um espantalho,
isso tenho sido desde que nasci.
Olha, moço,
não consigo entender o sonho dos poetas.
Dizem que ser livre " é ter uma calça jeans,
rasgada e desbotada" e andar livre por aí.
Taí, eu tenho uma calça jeans,
rasgada e desbotada,
e até ando "livre por aí".
Mas quando o frio chega, moço,
vejo que liberdade é poder ter
de onde sair e pra onde voltar.
É querer voltar, por que existe
alguém que queira que você volte.
E isso, certamente não tenho.
Moço, esse frio que dá no coração da gente,
nem cachaça consegue esquentar.
Olha moço, sei que você diz que
eu preciso de Deus pra aquecer meu coração.
Mas, além de conselhos, preciso de mais.
Preciso de panos, roupas,
que aqueçam esse velho corpo surrado, e
preciso de Deus como roupa
pra minha alma
e aqueça meu coração.