* Parte 2a - Tomando banho de banheira
 
Letra Vídeo Áudio

Duque de Caxias 29 de Março de 1979.

COMO MEU AMIGO JÁ INFORMOU, meu nome ó João lnácio. Decidimos dividir essa narrativa para que as pessoas que lerem tenham uma idéia de ambas opiniões e possam entender melhor o que aconteceu.

Vocês já sabem que surgiu involuntariamente uma terceira personagem: Minha colega Márcia. Embora eu tenha permanecido calmo, culpei Monteiro pelo descuido de esquecer a porta da garagem aberta. A isso foi acrescentado o fato da Retronave ter oscilado quando descemos dela.

Durante minha conversa com Marcinha (é assim que a chamo), quando tentava acalmá-la, ouvimos um ruído e verificamos que a Retronave rolara para um lado e amassar-se. lnfelizmente ela deve ser uma esfera perfeita e isso nos custaria muito trabalho. Tudo isso contribuiu para balançar meu relacionamento com o Monteiro e durante algum tempo deixamos de comunicar-nos, numa atitude infantil mútua.

Todas as pessoas que tinham relação conosco notaram essa modificação radical. Por mim, não gostava absolutamente dessa situação e procurava algo para não pormos tudo a perder. Essa chance surgiu ao ocorrer-me a idéia de prover a Retronave com um sistema de propulsor, assim não seriamos repelidos.

Na tarde desse dia, com é casa de Monteiro e o encontrei sentado é mesa lanchando.

- Descobri - gritei.
- Ele olhou-me sem parar de mastigar e respondeu:
- andou tomando banho de banheira?
Na hora não compreendi o que ele quis dizer com isso, só mais tarde. Contei-lhe minha idéia e percebi o interesse em seus olhos. Após ouvir-me, sorriu e disse:

- Eu nunca pensei em desistir. Tenho algo para lhe contar também. Contei tudo a Márcia e ela está conosco agora. Não sei se concordará comigo, mas até instalei um assento a mais na Retronave, ficou apertadíssimo, mas dá pra três pessoas. Você sabe que ela é taquigrafa e nos será útil. Em poucas palavras, foi assim que tomamos com força redobrada ao trabalho.

Quanto à Marcinha, tentamos pô-la a parte de todos os acontecimentos. Foi difícil até para nós, imagine para ela acreditar. Uma decepção foi que as fotos que tirei, davam a impressão de um céu com poucas estrelas, ou seja, alguns pontos luminosos em um fundo escuro. Qualquer pessoas que visse as fotografias, imaginariam mil coisas, menos falássemos de elétrons pulsantes. Já está enraizado em nossas mentes aquele velho conceito de modelo atômico...

Desculpem-me, pois eu já estava começando a divagar. Pois como Monteiro costuma dizer: sou um poeta bastante extrovertido. Bem, para acharmos um tipo de propulsor, tivemos sérias dificuldades, embora não precisássemos necessariamente de um impulso forte. A questão era o que?! Pensamos em jatos de ar, mas não era possível bombear O ar do interior do veículo, a menos que quiséssemos morrer sufocados.

Certo dia, observei na Av. Nilo Peçanha um acidente com princípio de incêndio de um automóvel. Tive a idéia ao ver o motorista usar o extintor. Pensei que, caso a saída de descarga do extintor fosse bem menor, poderia haver um bom impulso em sentido contrário ao do jato.

No dia seguinte, discutindo isso (na presença de Marcinha), chegamos a conclusão de que era possível carregar dois ou mais extintores com ar é alta pressão.

Conseguimos facilmente os extintores vazios, mas tivemos dificuldades em convencer um sujeito baixinho e bigodudo a carregá-los com ar, já que alegava não ser essa a função correta. Depois, com mais dinheiro no bolso, ele finalmente convenceu-se de que “éramos de toda confiança”.

Grosseiramente explicado, achávamos que a diferença de pressão entre os cilindros e o ambiente externo seria suficiente para nos impelir. Bastava para isso, adaptar os extintores de modo que a válvula de saída, ficasse na parte externa e assim que abríssemos essa diferença de pressão se encarregaria do resto. Sendo assim, nosso único problema seria a localização. Como Vocês devem ter notado, não temos conhecimentos amplos sobre esses assuntos, mas com alguma sorte poderíamos ter sucesso.

A instalação desses “propulsores” nos deu trabalho quanto a vedação, já que tivemos de abrir os orifícios para as válvulas no revestimento da Retronave, de modo que isso não influenciasse na perfeita forma esférica.

Embora eu nunca tenha perguntado, pude perceber que Monteiro tinha uma certa relutância em admitir Marcinha em nosso grupo, e pude sentir bem isso quando ela quis inteirar-se completamente do funcionamento de tudo e ele hesitou antes de concordar. Estávamos os três sentados, conversando em minha casa.

Era uma tarde bem quente, embora tivesse chovido no dia anterior. Após a indagação da Marcinha e a hesitação do Monteiro, ele começou a explicar-lhe, quando fiz discretamente um sinal afirmativo.
- O princípio de tudo - começou - foi a descoberta de uma força que atrai a luz tal qual um magneto atrai metais. O termo exato, não é “atração”, mas isso não vem ao caso. Como Você viu, a Retronave é perfeitamente esférica e coberta externamente de uma redoma que reflete os raios luminosos. Ao emitirmos um feixe de luz, este ó refratado pela redoma e depois retoma ao “centro do foco” por meio desta “atração”. A luz, ao regredir, modifica-nos dimensionalmente, e pelo que pudemos observar, também temporalmente.

Essas últimas palavras foram seguidas por um leve aceno de cabeça por parte de Marcinha, indicando que entendeu a explicação. O objetivo dessa nossa reunião, era dar explicações a ninguém. Estávamos ali para tirar novas conclusões com tudo organizado.

Não demoraria muito a anoitecer quando demos por finda essa tarefa e nos propusemos a marcar nova tentativa de viagem, só que desta vez estávamos preparados e não desistiríamos como tanta facilidade como da outra vez. O único inconveniente era que sendo Marcinha, uma garota, não teria tanta facilidade como nós em “viajar”. Decidimos afinal, pelo próximo sábado, quando todos obteriam um tempo disponível.