Duque de Caxias, 25 de Março de 1979.
FALTAVAM ALGUNS MINUTOS para o termino da aula, quando eu senti uma leve pancada um pouco acima do pescoço. Virei-me a tempo de ver uma bola de papel cair ao chão.
Duas filas atrás, João acenava, apontando para o solo, como querendo dizer “será hoje”? Não, talvez amanhã - respondi -mostrando uma folha onde tínhamos planejado tudo no dia anterior.
Eu estava excitado, que mal importei-me quando nosso professor chamou-nos a atenção e começou a traçar fórmulas no quadro-negro. Pela janela aberta, chegava-nos o som de um cão que ladrava insistentemente, e foi o bastante para que a turma começasse a se agitar, já que era a última aula do dia e todos esperavam impacientes que o sinal nos liberasse.
As letras e números que dançavam no quadro já não faziam muito sentido para qualquer um de nós. Percebendo isso, o professor deu por finda a aula e encaminhou para sua mesa, iniciando como que uma contagem regressiva ao pronunciar os números de chamada, no que era respondido por um “presente”.
Poucos minutos depois, um sinal estridente se fez ouvir, mas um olhar de esguelha do professor advertiu-nos de que esperássemos o final da chamada, e entre cada “presente”, se faziam ouvir os inevitáveis ruídos de cadeiras arrastando-se nervosamente. Quando pronunciou o último número, ele lançou um sorriso de aprovação. Em menos de um minuto, só restava ele na sala... e ainda pude vê-lo balançar a cabeça e rir, talvez lembrando seus “velhos tempos.
Senti uma sensação estranha ao passar do calor aconchegante de nosso colégio para desfrutar de uma brisa leve e gelada que embaraçava meus cabelos e dava a impressão de mil alfinetadas. Comecei a correr mesmo sabendo que outro dia não chegaria mais depressa. E realmente não chegou.
Conforme se aproximava ao momento decisivo, nascia uma apreensão da qual eu não conseguia extrair as raízes. Não foram poucas as vezes que abri os olhos durante a noite e só vi pontos luminosos bailando ao som de uma música inaudível. Ri comigo mesmo, ao pensar em que deveria ter escrito um livro de poesias em vez de meter-me a cientista.
