* Parte 1d - Primeiras impressões
 
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D. Caxias 26 de março de 1979. 
ABRI LENTAMENTE OS OLHOS e admirei-me de serem 8 horas da manhã. Não me lembro de ter dormido um instante sequer esta noite. Era um desses dias em que uma pessoa tem a sensação de não ter tido sonhos durante a noite passada. Dei um tapa exageradamente forte, no despertador.

O sol ia alto, seguindo o seu aparente e interminável caminho celeste, quando saí à rua, olhando as pessoas que transitavam e com uma louca vontade de parar para contar-lhes que grande dia era aquele. E foi autorecriminando-me que entrei naquela velha garagem. Tranquei a porta após entrar quedei-me a mirar uma esfera de metal que poderia abrigar tranquilamente duas pessoas sentadas.

- Em que está pensando?- Ouvi uma voz atrás de mim. Virei-me como em um daqueles fumes antigos de far-west. João estava sentado em um banco, próximo a porta. Eu tinha passado por ele e não o tinha visto.

- Bem - disse - Chegou a hora.

Tomando a frente, encaminhei-me para a minúscula porta que indicava a entrada para o interior do nosso aparelho. Entrei e acomodei-me em um improvisado banco. João sentou-se em um banco ao lado. Estendi um braço e abri uma pequena placa de metal que girou nos gonzos e revelou uma média camada de vidro transparente, fazendo a vez da janela, Em um dos lados da cabine, havíamos posto um transformador. Exatamente no meio existia o “Centro de Foco”, que era o aparelho do qual emanava o feixe de luz, o qual seria atraído novamente ao seu ponto de origem, após iluminar todo O interior do veículo e, atravessando a proteção de vidro da janela, forma um círculo ao redor da esfera. Fora isso, tudo o que levávamos consistia em uma pequena quantidade de alimentos e água, uma câmara fotográfica e um relógio; Abaixo deste último, assinalemos a hora e data de partida.

Eram 13h20, quando o transformador foi ligado para regular a voltagem, e a seguir, a luz começou a brilhar. Quase que inconscientemente, falei: “Eu te batizo. . . RETRONAVE.”

Lá fora, ainda existiam as folhas de papel amassadas e rabiscadas, distribuídas pelo chão; a mesa continuava entulhada até que João ativou o mecanismo principal. As batidas de meu coração, estavam acelerados, mas nada desse mundo faria-me despregar os olhos da janela. O efeito era incrível, pois, juntamente com a luz, todos os contornos pareciam apagar-se com uma lentidão enervante, e minhas têmporas latejaram quando as paredes que nos cercavam começaram a agigantar-se com uma rapidez espantosa.

Colei meu rosto ao vidro, mas dentre em pouco as paredes estavam de tal forma ampliadas que já não se distinguia nada mais a não ser elas. Passados alguns minutos, a visão do exterior parecia embaçada como numa bruma. Chegamos a conclusão de que as coisas não estavam crescendo ao nosso redor, pois somente nós fomos afetados, assim, o que acontecia era que diminuíamos cada vez mais, e aquela bruma na verdade, era o ar que para nós se tomava mais e mais denso

Até o final desta viagem, não saberíamos se o tempo estava sendo influenciado ou não, já que o relógio continuava seu trabalho com a mesma precisão de antes. Confesso que senti medo, e muito. Mordi os lábios com força e olhei para meu companheiro, ao notar que uma escuridão tomava conta do exterior. Nenhum de nós dois falou qualquer coisa, mas POSSO jurar sobre a Bíblia como não fui o único a sentir estremecimento pelo carpo. Por alguns minutos, como a escuridão persistisse julguei-me perdido, embora essa impressão desaparecesse ao surgirem pontos luminosos como aqueles que costumava ver quando fechava os olhos.
- o... o que você acha que seja isto? - perguntou-me João.
- Bem - foi a palavra que poderia achar para tentar raciocinar, já que estamos diminuindo. O que poderia causar este efeito luminoso? -perguntou-me João.
- Na dimensão em que estamos - disse João - só tem uma resposta; todo elétron ao passar de um orbital para outro emite ou absorve energia e é isso o que estamos presenciando agora, pois nada mais do que um elétron poderia ser a causa. O que estamos vendo, na verdade é a eletrosfera de um átomo.

Ficamos extasiados ao perceber o que se aproximava paulatinamente até poder ser visto com perfeição. Uma esfera vinha ao nosso encontro seguindo um sentido fixo e com um movimento de rotação extremamente elevado. Antes de atingir uma distancia perigosa, para nosso espanto, ela seguiu um sentido inverso ao inicial mantendo a mesma velocidade. Fizemos esta observação várias vezes.

- O que você acha? - Perguntei.
- Será que tudo o que imaginávamos é falso?

Realmente, dava-nos muito o que pensar, já que essa nova situação destruiria muitos conceitos que achávamos irrefutáveis. Que surpresa Nunca ouvi falar de alguém que acreditasse que os elétrons tivessem um movimento pulsante, e pelo que parece, essa é a verdade da qual não podíamos ter desviados.

Pelo canto do olho, vi que João pegou a máquina fotográfica, e preparou o filme para exposição, tomando posição junto janela. Esperou que uma daquelas fulgurações servisse de “flash’ e bateu duas fotografias. Levando em conta o pequeno espaço de tempo entre duas fotos, eles dariam uma boa idéia do movimento e velocidade dos elétrons. Apesar do nervosismo que nos tomava, um esboço de sorriso aflorou em ambos.
Durante quase meia hora, fizemos observações e cheguei a imaginar que ficaríamos estabilizados nessa situação. Imaginei errado. Até agora não entendi bem o porque, mas cada aproximação do elétron, tínhamos a sensação do estar mais próximos dele e tal sensação confirmou-se quando fomos arrastados por este, atingindo uma velocidade que calculei como fantástica, tal a aceleração que nos comprimiu de encontro aos assentos.

Essa viagem pouco demorou, seguindo-se uma pausa e começando nova aceleração. No total, foram sete as acelerações que sofremos, o que levou-me a pensar que realmente existiam sete níveis em um átomo. Tudo encaixava perfeitamente. Foi João quem me chamou a atenção para algo que se delineava é direita do visor.
- Diabos, por que tudo aqui tinha uma forma esférica?
No meio deste pensamento, fui interrompido ao sofrer uma aceleração maior que todas as outras até então. João bateu a cabeça em uma das paredes laterais e parecia que a frágil armação não resistiria ao choque sofrido.

Aquilo que meu colega calculou mais tarde como a núcleo, cresceu desmedidamente e vimos que o processo de encolhimento não tinha cessado ainda. Pela segunda vez, vimos a escuridão completa, que nos assustava mais do que qualquer coisa. Senti algo que a princípio poderia ser causado somente pelo medo, algo como falta de ar. Então veio-me um estalo na mente. Como poderia esquecer-me de coisa tão importante? Após alguns instantes de angústia, começou a parte mais incrível deste relato.

Embora eu estivesse com os olhos fechados e as pálpebras contraídas, notei que já não reinava a escuridão. Quando abri os olhos, João já estava é minha frente, tirando fotos e mais fotos, e aqui merecia realmente. Era uma nuvem compacta que emitia débil luminosidade. Mais além, o nada, aquela nuvem era tudo

- Monteiro - disse João - Estou sufocando.
- Também sinto a mesma coisa - respondi - Pensamos em tudo, menos no ar, e ele está se acabando. Melhor voltarmos, acho que já fizemos mais do que poderíamos sonhar durante nossas vidas, e também podemos voltar novamente, e desta vez mais preparados.
- Deve haver outra solução. Pense um pouco. Viemos até aqui e talvez possamos ir adiante.
- Para onde?
- é isso que queremos saber. Veja só: o que você acha que seja esta nuvem?
- Uma massa de energia, pelo aspecto, embora eu nunca tenha visto uma. Mas eu te conheço bem e acho que sei onde você quer chegar. Você está se lembrando de uma conversa que tivemos, não ó? Eu quis falar algo, mas ele não deixou-me.
- Está certo, Monteiro. Digamos que essa massa expluda e se espalhe. Em comparação com o nosso mundo, nós somos minúsculos, mas poderemos assistir de camarote a criação de um novo universo. Concordo que ó algo fascinante, porém já ocorreu-lhe a idéia de que teremos que esperar milhares de anos para que isso aconteça?
- Poderemos também - respondi - apressar isso.
- Acho bom, Não acho que nos reste muito ar.

Então fale menos e aja mais. Sem responder, talvez contrariado, ele começou a operar o aparelho de inversão da luz. Assim que terminou, liguei o centro de foco e a luz espalhou-se. Com um ligeiro movimento, João acionou o aparelho. Em instantes parecemos mergulhar naquele nada. As velocidades pareciam-me incalculáveis, tal era a rapidez com que a massa luminosa pareceu esfacelar-se em bilhões de fragmentos incandescentes. Em segundos estávamos envoltos completamente e pude ver melhor do que era formado tudo aquilo.

Era simplesmente matéria. Qual, não sei. Estava preocupado demais, em respirar aos poucos e com lentidão. Vários pedaços passaram tão perto que temi um choque. Eles, sem exceção, tinham um movimento de rotação o que pouco a pouco lhes conferiu a tão famosa forma esférica.

Tudo isso, não demorou mais de alguns segundos, e em poucos minutos estava formado perto de nós um sistema, se ó que poderíamos chamar assim, com ao menos cinco planetas pelo que alcançava a vista. Estes eram iluminados por uma gigantesca estrela, que facilmente poderia conter todos os planetas em seu interior.

Todos estes últimos, tinham uma coloração avermelhada, supusemos que seria devido é temperatura. A cor mudou quase que instantaneamente para alaranjado e finalmente, cinza. Em seguida, alguns planetas adquiriram um tom que dava a entender que estavam cercados por nuvens de chuva. Afinal, víamos os característicos tons azulados que indicavam a presença de mares, e para existir a vida, era somente alguns passos.

- Bem - falou João - só faltam poucos milhares de anos. Tomara que dó tempo.

Tempo... de novo essa palavra. E tossiu, como para confirmar isso. Felizmente, a espera não foi longa demais. Eu tinha certeza que conseguiríamos.

Alguns segundos passaram-se, mas eles representavam, talvez, além de milhares de anos fora daquela esfera. A gravidade nos atraía, a principio com lentidão e depois mais rapidamente. Meu estômago
pareceu subir até a boca, e senti um enorme vazio em meu interior. Era a força da inércia, devido é aceleração de nossa queda.

- Rapaz - balbuciou João - vamos nos espatifar em mil pedaços - e deu um sorriso.

Apavorado eu disse:
- Vamos espatifar-nos em mu pedaços, e você ri?
- Estou pensando no trabalho que daremos a alguém lá embaixo, para limpar nosso sangue, isso ó, se tiver alguém lá embaixo.
Nunca ouvi algo tão for de momento, mas nas condições em que estava não podia objetar em nada.
- “Que fim - pensava - e logo comigo. Por que não com aquele padeiro, ou o motorista daquele ônibus?”
As paredes da Retronave não suportariam O atrito atmosférico e certamente morreríamos antes de tocar o solo. Claro está que se tal coisa acontecesse, não estaríamos relatando tudo isso.

Um fato inusitado ocorreu, modificado esse triste fim. Eu já sentia a aceleração, embora continuasse a sufocar.
- Estamos parados, disse João.
- Brilhante dedução.

Eu quis dizer que a Retronave está parada... e no ar. E pelo que eu sei, ela não voa, ao menos até agora.

Era realmente estranho, olhar para fora e ver-se suspenso no ar é uma altura indeterminada. Não chegamos a discutir muito sobre se a atmosfera seria ou não respirável. O medo de sufocação foi maior que todas as dúvidas.

João abriu com certo esforço o vidro, e imediatamente, uma lufada de ar fresco penetrou na cabina. Retive alguns instantes a respiração, mas vendo meu amigo sorrir satisfeito, inspirei profundamente.

- Não entendo nada - ele disse depois de um curto silêncio.

A temperatura era agradável, e o dia parecia como um desses dias de verão. Podíamos ver até o horizonte, que por sinal era muito próximo, e que dava a entender que esse mundo era de menor diâmetro do que a terra. Haviam diversas nuvens espalhadas pelo céu muito azul, quase verde, e esse conjunto deixava uma estranha impressão, que não nos agradava muito.

Prestamos a máxima atenção, afim de notar qualquer sinal de vida. A nossa direita, uma sombra esvoaçava elegantemente e passou bem perto de nós. Antes que eu pudesse compreender bem, João já tirava algumas fotos rápidas.
- Um pássaro - disse ele - só podia ser um pássaro. De plumagens coloridas e... veja ali, na direção em que ele desapareceu.

No lugar indicado, percebia-se um agrupamento de pássaros semelhantes ao que viramos antes, formando um funil que encurtava na direção do solo. Antes que João tirasse algumas fotos tive a impressão de estar em um elevador e essa impressão foi real9ada pela exclamação de meu amigo:

- Caramba! Ou muito me engano ou estamos descendo.

Realmente, já era possível ver-se algo da paisagem abaixo de nós. Queria eu poder relatar com minúcias todas as sensações que sentíamos, mas ó coisa humanamente impossível, dadas as restrições que existem.

Daqui por diante, esta narrativa passa a ser mais incrível do que nunca, mas nos doem ao menos uma ponta de crédito. Aos nossos olhos, tudo era irreal também, e só mais tarde viemos a encarar os fatos como eles nos foram apresentados na verdade. Tudo isso abateu-se sobre dois rapazes como se fosse uma coisa banal como no início.

Ao que parece, havíamos acertado até nesse ponto, existiam construções piramidais por todo o solo e distribuídas de forma simétrica, jaziam centenas de pontos que é aquela altura, só podíamos pensar serem janelas. próximo a nós, embora um pouco acima, ouvimos um zumbido que lembrava ao longe um avião ou coisa parecida. Não nos foi possível identificar tal ruído. Inesperadamente; uma maldita aceleração transformou todas aquelas cenas fascinantes em simples borrões, como se estivéssemos em um trem expresso é toda velocidade.

- Não estou compreendendo bem - falou João - mas estamos sendo repelidos.
Era verdade. Resolvemos silenciosamente não tirar mais qualquer conclusão, dada a inutilidade de tais atos. Como para reforçar essa decisão mútua, aos poucos deixamos de sentir os efeitos da Lei da inércia, no entanto a velocidade aumentou a tal ponto, que não passou-se exagerado tempo até perdermos de vista por completo aquele mundo futurístico.

Mergulhamos diretamente em um oceano. Em um oceano de estrelas que realmente davam essa impressão. é indescritível, em todo o sentido dessa palavra, como uma pessoa sente-se menor que uma ínfima partícula de pó, perante algo mais infinito que supúnhamos existir. O universo ó infinito, incomensurável, em todos os sentidos imagináveis. Não sei o que sentiu meu companheiro de jornada, mas eu vi-me em toda minha pequenez e insignificância. Era inútil tudo aquilo; Jamais, nem mesmo em uma eternidade, conseguiríamos moldar tudo aquilo a nosso bel-prazer.

E modificar ó a própria natureza humana. Daí, só minha idéia de que a meta do homem nunca seria atingida. Então, por que a existência desse ser inconformado, que marcha para o fracasso, sem ao menos saber esse triste destino que o está esperando desde sua criação?

Foi uma dúvida arrasante, que deve ter ocorrido a milhares de pessoas, mas nenhuma delas podia ter uma certeza tão grande como a nossa naquele momento.

- Desisto, Monteiro. Nada ganhamos até agora, ao menos nada de bom. E impossível... Nós não pertencemos a este mundo ó talvez por isso outra coisa qualquer nunca poderemos conhecê-lo. Seremos sempre repelidos. É melhor voltar. Ele esperou minha resposta com o olhos fixos em mim. Não a dei porque intimamente concordava com tudo aquilo. Liguei o inversor luminoso e sabíamos que a luz voltaria ao seu piano natural e nós voltaríamos com ela.
Sentimos as mesmas sensações anteriores, mas não abri os olhos por nenhum momento, embora ouvisse “clics” provenientes da máquina fotográfica que João devia estar operando.

Quando finalmente abri os olhos, vi uma expressão que ficaria sempre gravada em minha mente, tal era a surpresa que estava naquela face. No outro lado da garagem, próxima é porta, estava uma pessoa abismada. O nome dela é Márcia Gonzaga. Tenho a impressão de que ela queria dizer algo, e n&o o conseguia, mas não tenho certeza. Só afirmo que ela não descolou-se da posição em que estava, mesmo quando saltamos da Retronave. João a conhece muito bem e aproximou-se dela, de um modo natural.

- Oi, Marcinha. O que houve? Disse sorrindo.

Ela demorou um tempo excessivo para responder-lhe.

- E minha impressão... que Vocês entraram naquilo, sumiram e no mesmo instante apareceram novamente? -hesitou.
Foi a nossa vez de assustar-nos.

- No mesmo instante reaparecemos ? - perguntei. Quedamos os três calados.