ESTRANHO COMO, CONTANDO AGORA, os fatos dão a impressão de terem ocorridos com outras pessoas e não conosco; e parecem algo distantes. Mas aconteceram, quer eu queira ou não. Tentarei descrevê-los como toa a fidelidade que me for possível.
Não sabendo escolhido, tudo parecía-me diferente, mesmo as coisas mais comuns. Eu sentia um sabor exótico nas canções que vinham de um lugar próximo, nos risos e gritos de crianças e todo O dia transcorreu assim.
Aproximadamente às 18h00, dirigi-me à garagem e tal foi minha pressa que adiantei-me aos outros. Vi quando Marcinha e Monteiro aproximaram-se e bateram é porta. Não tínhamos mais nada a falar, portanto, não pronunciamos nenhuma palavra ao entramos na Retronave. Fui o último a faze-b porque quis certificar-me de que ninguém entraria ali na nossa ausência, como ocorreu com Márcia. Tomei assento. O acender da luz foi quase imperceptível, mas era fácil notar como ela retroagia. Tudo ocorria como antes, com a única diferença que já sabíamos o que esperar.
Lembrava vagamente um entardecer. A visão turvava-se um pouco e depois... nada. A escuridão enervava-me, mas não só a mim. Podia adivinhá-lo pois ouvia as respirações ao meu lado, pesadas. Afinal, surgiram as luzes, como faróis distantes e misteriosos. A cada cintilar, eu conseguia ver o rosto de Marcinha, com uma expressão deliciosamente atônita. E foi justamente ela quem quebrou o longo silencio que reinava até ali:
- Esses... pontos luminosos, são elétrons? Será que são molinhos e frios com gosto de chocolate!?... Ah, Netinho, (assim que ela me chama) eu quero um.
- Como se não chegasse um engraçadinho aqui dentro, agora temos dois - murmurou Monteiro.
- Pensamos que sim - respondi - porque, pela lógica, eles seriam a única causa para esse fenômeno. Agora, se tudo ocorrer como antes, um desses elétrons nos atrairá assim que aproximar-se o suficiente e seremos lançados de um para outro ate atingirmos o núcleo.
- é isso - interrompeu Monteiro - sem cessar a nossa redução de tamanho.
Quanto ao seu elétrons - completei - se der tempo agente põe um aqui dentro. Mas cuidado, ele morde muito. Realmente, os “faróis” tomavam-se mais e mais próximos, a ponto de prevermos, mentalmente, um colisão. Não sei se tal poderia ocorrer e O que isso acarretaria, mas ficou somente na suposição, pois fomos irremediavelmente atraídos e lançados é uma aceleração apavorante. Enquanto as acelerações se sucediam, eu procurava fotografar tudo, porque tencionava comparar os fatos com as anteriores. Então, surgiu uma imensa esfera luminosa, que em pouco tempo, tomou toda a nossa visão, tal eram as dimensões. Fomos de imediato, tragados por eles.
A mesma massa luminosa que já conhecíamos estava lá, como que esperando. Esperando o meu gesto que jamais deveria ser feito. Mas eu o fiz. O tempo acelerou-se milhões de vezes, arrastando-nos com ele, ao acionar do conversor. Vimos aquela energia disparar em todos o sentidos, numa explosão de âmbito universal.
O tempo que seria medido em séculos, escoava-se em segundos. Aquela massa unida dividiu-se incontrolavelmente, em um movimento louco, girando, girando e adquirindo formas esféricas. Era a formação de um universo. Um universo dentro do nosso.
À nossa frente, surgira algo novo: um planeta, mas não como o anterior. Parecia ter somente um continente, embora gigantesco. Tinha um planeta. Recebia calor de uma enorme estrela vermelha que parecia mais imponente ainda, ao lado de uma estrela menor e aparentemente, mais fria. Era embriagador e ao mesmo tempo, terrível observar aquelas cenas.
- Olhem - comentou Marcinha - aquele ponto no lado esquerdo, refletindo a Luz, e só por isso conseguimos notá-lo. Era outro satélite, mas bem menor... e não era natural. Podíamos perceber o brilho metálico.
Ficamos vários minutos a olhar, ate notarmos uma diferença.
- Ele está aproximando-se - disse Monteiro.
- Não - falei - Nós ó que nos aproximamos.
Depois de alguns minutos (ou seriam horas?), já que era possível vê-lo com nitidez. Possuía uma antena oval giratória que seguia nossa aproximação.
- Acho que devemos disparar um jato na direção contraria – opinou Marcinha.
Monteiro apontou para o espaço vazio que estava na direção indicada e falou:
- E para onde iríamos?
- Realmente. Temos duas alternativas além dessa. Uma é irmos em direção ao planeta e arriscamo-nos a nos arrebentar no solo. E a outra ó ficarmos quietos e esperar.
A lenta chegada do satélite não era confortante, mas as outras alternativas também não o eram. Optamos por esperar.
- Netinho, e se lá dentro sair aqueles Marcianinhos verde da “status” - comentou Marcinha.
- Bem que você queria - completou Monteiro.
Enquanto dentro da Retronave se desenvolvia aquele papo “altamente intelectual” eu admirava a imensa construção metálica. A distância pode enganar, entretanto somente aquela antena parecia ser muitas vezes maior que a Retronave.
Era constituída de milhares de alvéolos, cada um com um ângulo diferente, já que formavam uma superfície côncava. Cada alvéolo, era facetado, e foi fácil perceber que a imagem da Retronave atingia uma das faces daquele conjunto fantástico e assim, eles tinham nossa perfeita localização, seja lá o que fossem.
Até hoje não sabemos se fomos controlados ou tinha traçado nossa trajetória, pois esta nos levou com absoluta precisão ao interior do satélite. Passamos por comportas cujas espessuras chegavam a ser maior que o diâmetro de nossa nave, tudo em um metal que parecia emitir Luz própria, ou talvez refletisse.
Estávamos a imaginar mu coisas que veríamos ali, todavia a decepção foi total no início, pois não havia absolutamente nada a não ser um recinto enorme e vazio. Até então, não recebíamos nenhum som do exterior. Um murmúrio indicou que injetavam uma atmosfera. Sendo assim, ou viriam ao nosso encontro ou queriam que fossemos a eles. Como não somo heróis, preferimos a primeira hipótese e nos armamos com toda a calma possível. Que era quase nenhuma por sinal. O nosso campo de visão era tão restrito que não sabemos de onde eles vieram.
Apenas os vimos surgir, com expressões curiosas, no rosto de uma tonalidade avermelhada e cabelos cor de trigo. A tez vermelha era a única coisa que os diferenciava fisicamente de nós. Começaram a fazer sinais que, com evidência, significavam que nos queriam lá fora e que não havia perigo algum.
Francamente, não estávamos dispostos a sair dali, porém a curiosidade nos leva por vezes a atos contraditórios. A atmosfera era perfeitamente respirável e a temperatura um pouco alta.
Notei que um deles destacava-se dos outros e nos aguardava poucos passos além da saída da Retronave. O que ele fez em seguida foi atordoante. Pois falou:
- Vocês demoraram mais do que o esperado. Podem acompanhar-me e não temam.
- Você... fala nossa língua? - não me lembro quem disse isso.
- Mais tarde falaremos sobre o que Vocês quiserem. Venham.
Essa atitude não agradou-nos, pelo que pude perceber da expressão do Monteiro e por mim mesmo.
Ele nos guiou até um comporta relativamente pequena, por um corredor, até um recinto quadrado, cuja porta metálica fechou-se é nossa passagem. Ficamos alguns segundos parados ali e não senti absolutamente nada. Quando a porta tomou a abrir, estávamos em um local bem diferente do anterior. Imaginei que tínhamos usado elevador. Sem dizer palavra ou olhar para três, ele apressou os passos, encaminhando-se com segurança por portas e corredores. Paramos numa espécie de sala.
E curioso notar que as tonalidades do ambiente, pendiam todas para o púrpura e suas matizes. Os assentos eram colocados no chão, de modo que parecíamos uma família nipônica.
Ao que parece, eles não gostavam de palavras que não levam é nada, ou então aquele representante era assim, pois nem ao menos apresentou-se.
- Nós sabemos a muito tempo, que existem várias dimensões, tanto no infinito maior, como no menor. O único detalhe desconhecido era o modo de cruzar essas dimensões, pois até agora só conseguimos enviar ondas de radio distorcidas. Foi assim, que por um acaso descobrimos que Vocês tinham o segredo, já que pudemos observá-los. Conseguimos impulsos enquanto dormiam para que construíssem uma nave que planejamos. Ou vocês pensam que sozinhos teriam obtidos todos esses sucessos? Eu fui incumbido de estudar sua língua, embora ache supérfluo dar essas explicações. Nesse momento, seu invento está sendo estudado e copiado, para aperfeiçoá-lo.
- Com qual finalidade? - indaguei, receoso da resposta. Pela primeira vez, um sorriso brotou nos lábios dele.
- Só posso dizer-lhes que dentro em pouco, a nova nave estará equipada com quase uma centena de bombas. O resto, adivinhem por si sós.
- Mas a troco de nada? - perguntou Marcinha rapidamente apavorada.
- Não, como Vocês sabem apesar de sermos do mesmo mundo que o seu, estamos em outra dimensão. E existem fatores que não adiantariam lhes explicar, que são fatais é nossa sobrevivência.
Levantou-se e saiu sem uma palavra ou gesto de despedida. Passados alguns instantes da surpresa, só pude observar:
- Uma Retronave equipada com bombas? Eles serão tão ingênuos de pensar, que conseguirão dominar o mundo com cem bombas?
- Poderão sim - replicou Marcinha - caso eles lancem as bombas no tempo. Lembram-se de quando eu vi vocês desaparecerem e reaparecerem no mesmo instante? a Retronave modifica o tempo também. Se eles lançarem uma bomba após outra, de modo que eles explodam uma por ano, o nosso mundo será bombardeado durante cem anos seguidos e ninguém poderá fazer nada.
A razão de todos os mundos esta com ela, isso era inegável, mas o que poderia ser feito por nós? eu tentava pensar em algo praticável, quando Monteiro dirigiu-se é porta de onde o ser tinha saído. Eram duas placas de metal verticais que se abriam e fechavam horizontalmente.
- O que ele fez para abrir isso? ele perguntou. Aproximei-se, seguido de Marcinha.
- ele somente parou aqui em frente, deve existir uma célula fotoelétrica ou algo semelhante. Realmente, vi um ponto no chão que se destacava por ser mais luminoso e assim que pisei sobre ele, devo ter aberto o circuito que mantinha as portas fechadas, e elas deslizaram sem nenhum ruído. Vi um braço surgir, um bravo vermelho e com um golpe de judô instintivamente puxei-o, fazendo a pessoa que nos vigiava se desequilibrar.
Quase cai, enquanto Monteiro deu-lhe um golpe no pescoço. Levantei-me e consegui atingi-lo em pleno rosto com um pontapé. O homem vermelho desabou no chão, com sangue mais claro que sua pele a escorrer pelas narinas e boca. Saímos sem destino, sem escolher lugar até que Marcinha reconheceu o “elevador” por onde tínhamos vindo. Abrimos a porta do mesmo modo anterior, embora tenham demorado alguns segundos mais.
Concluímos que ele nos levaria somente da “garagem” onde estaria a Retronave, até onde estávamos, já que aparentemente não havia meios de parar o elevador em outros lugares. E assim foi. A porta abriu-se, atravessamos o corredor e a comporta. No recinto amplo e iluminado, podemos ver a Retronave e mais adiante, uma perfeita cópia dela, não fosse o melhor acabamento e o brilho do metal. Duas pessoas iam e vinham, carregando para a Retronave II, objetos cilíndricos. Ao acabar a tarefa eles se postaram, em frente à Retronave e acenaram como se alguém os pudesse ver. Em seguida, entraram.
Em poucos segundos, aquela imagem se desvaneceu gradativamente e nada mais restava...
- Eles se foram - disse Monteiro - com certeza para bombardear nosso mundo.
- Olhe - falei - em poucos minutos saberão que fugimos. Vamos embora. No caminho, pensaremos no que fazer.
E sal’ correndo, rumo é Retronave, seguido de perto por meus companheiros. Embarcamos, ligamos o centro de foco e a reversão e tudo se apagou para nós. Estávamos no “limbo”, no nada. E a angústia da espera se prolongou até vislumbrarmo-nos ao primeiro sinal de havermos chegado.
Era o caos. Não desligamos a reversão, e por isso era possível ver sem estar realmente lê, a destruição de tudo aquilo que nos era mais querido. Nada mais restava da garagem, a não ser os escombros fumegantes.
Controlando a velocidade da luz, viajamos por entre as ruínas e delas pouco estava em pó. Um nó apertado se fez em minha garganta. Meus pais... mortos. O colégio ali estava, só pedras carbonizadas. Meus amigos, talvez estivessem lê. Meu Deus! O fim veio é partir das mãos de três adolescentes.
E aquilo continuaria, até sugar a última gota de vida sobre nosso mundo. Foi com horror, que quedamos sem saber o que fazer. Tudo parecia tão inútil. Era necessário pensar, mas era extremamente difícil fazê-lo. Conseguimos porém, chegar é duas alternativas: poderíamos retroagir até o momento anterior a nossa captura e fazer com que ela não ocorresse, ou simplesmente voltar ao início de nossa viagem e destruir a Retronave, assim eles não teriam a menor chance de concretizar o que estava acontecendo.
Por um lado teríamos imensas dificuldades de executar a primeira hipótese, e por outro lado, perderíamos a oportunidade incrível de revolucionar todo o mundo se fosse cumprida a segunda. Mas ante os fatos que desfilavam por nós, não restava dúvidas sobre o que deveria ser feito. Imediatamente, parecíamos máquinas trabalhando. A luzes, que agora era nossa escrava, voltava, alternando tempo, espaço e dimensão.
Já não era tão emocionante, ver os fatos terem como um filme ao reverso. Foi com alívio, que passamos pelo mundo subatômico, voltamos ao nosso e afinal, pudemos ver a mesma garagem, em pó se sentimos que nosso mundo continuava alheio a tudo que ocorrera. Em um silêncio, todas as peças de um sonho, foram desmontadas e algumas destruídas. Não era possível retomar e pretendíamos nunca mais fazê-lo. Tínhamos conseguido modificar o futuro de um universo, e a sensação que nos dominava era de controle sobre o próprio destino, como se fossemos Deuses.
Compreendi então, que o homem poderia algum dia, alcançar todos os valores sonhados. Aproximando-se cada vez mais dos entes que ele considera superiores, mas que a única falha seria o suficiente para desfazer tudo o que foi conseguido até ali.
