Família e Orfanato
Eu, Isabel Serselina do Santos, filha de Manuel Antônio da Silva e Serselina Passeio da Silva nasci no dia 13 de maio de 1938, no Município de Marica, Estado do Rio de Janeiro, num lugarejo chamado Pindobas de Maricá.
Quando eu cheguei ao mundo, meus pais já tinham 11 (onze) filhos, entre crianças e alguns já adultos. Eu sou a caçula.
Meus pais moravam num grande sítio que mais parecia uma fazenda. Viviam do cultivo da terra, o que faziam com grande presteza, pois dali retiravam todo o sustento da família.
Meu pai era muito severo e não amaciava a vida de nenhum filho. Minha infância era assim: pouca alegria e muito medo. Devido à severidade de meu pai, minha mãe era mais suave. Não me lembro de ter recebido uma palmada sequer dela. As surras eram por conta dele.
Segundo contam as minhas irmãs, parece que não havia nenhuma religião na família. Os curandeiros e os macumbeiros eram consultados quando havia algum problema mais grave. Mas um dia apareceu por aquelas bandas um missionário da Igreja Congregacional Evangélica, dizendo as boas novas do Evangelho, o que foi recebido com certa facilidade pelos meus pais e algumas das filhas. A família passou a freqüentar a igrejinha que ficava muito distante de nosso sítio. Eu e meus irmãos, alguns deles e meus pais freqüentávamos aos cultos e Escola Dominical. Era o de maior alegria para mim, ir à Igreja, onde víamos pessoas diferentes e principalmente outras crianças.
Minha mãe e duas de minhas irmãs foram batizadas. Meu pai, eu não tenho informação de que tenha sido. Sua vida e procedimento não demonstravam isso.
A vida da nossa família corria assim, normalmente.
Meu pai, de vez em quando tinha crise e falava muito em suicídio. Algumas vezes meu impediram que ele fizesse alguma loucura. Eu não sabia bem o que se passava, mas ficava assustada. Criança naquela época e na minha família não tomava conhecimento de assuntos de adultos. Em parte isso era muito bom.
Finalmente, um dia, as ameaças do meu pai se realizaram. Num domingo, de manhã, depois de um desentendimento com minha mãe, por uma bobagem qualquer, meu pai se retirou sem nada nas mãos, para a mata do sítio. Mais tarde o corpo dele foi encontrado enforcado numa árvore. Até hoje, me lembro com tristeza e muito pesar daquela cena, e sempre me esquivei, esses anos todos de falar nesse assunto.
Hoje, sei que meu pai tinha o espírito muito atribulado, talvez tivesse até alguma doença mental, que hoje seria facilmente detectada.
Isso aconteceu mais ou menos em 1944, eu tinha por volta de seis anos de idade. Passado esse sufoco e tristeza tudo foi se acalmando. Os meus irmãos que viviam debaixo da autoridade de nosso pai, agora se viam livres e cada um tomou um rumo de vida. Minhas irmãs foram para o Rio de Janeiro, então Capital Federal, trabalhar em empregos domésticos.
Minha mãe ficou com os filhos menores sem ninguém para tocar a agricultura.
Lá na Igreja havia um presbítero, cuja família era muito amiga. A ex-mulher dele era comadre de minha mãe. Agora eram dois viúvos, minha mãe e senhor Pedro, homem calmo, crente, de boa sepa, de vida dedicada à obra do Senhor. Não demorou muito e os dois se casaram. Sr.Pedro tinha como minha mãe, muito filhos, mas apenas o menor deles foi morar conosco. Seu nome era Miguel e tinha minha idade. Da parte de minha mãe, em ordem decrescente: Samuel; Onícia (Nice) e eu. Sr. Pedro, diferente de meu pai, não era homem de lavoura, era marceneiro e pedreiro. Assim, a lavoura foi ficando sem cuidado. Decidiram então deixar o sítio aos cuidados de alguém e ir morar mais próximo da cidade do Rio.
Não sei bem por que, a minha mãe resolveu colocar eu e meus irmãos em collégio interno, isso é, orfanato para crianças carentes.
Hoje, fico pensando como ela teve coragem para fazer aquilo. Ela conseguiu as internações através de juizado de menores. Eu e Nice fomos para o Orfanato Dr. March, orfanato espírita no bairro de Fonseca, Niterói. Samuel foi para uma Escola Agrícola, muito distante, difícil até para se visitar.
A separação de nossa mãe foi muito triste, doeu por muito tempo. Nice chorava dia e noite e nós fazíamos muitos planos de fugir de lá. Mas ir para onde? Como? Desistimos e fomos nos acostumando à nova vida.
Como a vida de José no Egito, Deus estava traçando a nossa vida do jeito dele, que sempre é o melhor, mas aos nossos olhos não parece bom.
Recebíamos a visita da família uma vez no mês, terceiro domingo. A visita era de 14:00h às 17:00h. Parecia visita de hospital. Minha mãe vinha todos os meses, e os irmãos, de vez em quando.
Passamos lá no Orfanato oito anos, sem ir em casa. Não era permitido.
Hoje, olhando para o passado vejo como foi bom para mim e minha irmã aquele colégio. Eram mais de 200 crianças do sexo feminino a partir de cinco anos.
Lá aprendemos muitas coisas, datilografia, corte e costura, bordado e música, além do curso secular, que era bem cuidado. Fiz lá também um curso de taquigrafia. O que nós aprendemos nos abriu muitas portas quando precisamos aqui fora.
Não achamos, em princípio, que o orfanato fosse bom. Logo que chegamos, cortaram nossos cabelos que mamãe não deixava cortar de jeito nenhum. Cabelo longo não era permitido para não ajuntar sujeira e piolhos.
Tinha horário para tudo e às 6:00h tínhamos que acordar para fazer ginástica, com frio ou calor. Aos poucos, fomos nos adaptando e aprendendo a nos defender das outras crianças. Batemos e apanhamos bastante.
Aos 12 anos de idade tive lá, a primeira crise de saúde. Muitos pensavam que eu não escaparia. Foi em infecção na pleura seguida de pneumonia. Pela primeira vez tomei penicilina e por muitos dias. O cozinheiro da Escola preparava, todo dia, gemada ou gema crua para eu tomar, o que eu achava insuportável, mas tomava.
Quando saí dessa crise de saúde parecia outra pessoa, mais centrada, mais ajuizada.
Eu fui uma criança muito levada, mas também boa aluna nos estudos. Tinha boa memória e facilidade para aprender.
Com quase 16 anos de idade, eu e Nice deixamos o Orfanato. Sr. Góes, diretor do estabelecimento ficou muito sentido, mas minha mãe tinha autorização do Juizado de Menores para nos levar. Deixamos o colégio com muito pesar, pois já gostávamos de lá.
De volta para casa, primeiro emprego
Pela primeira vez íamos à casa, ou seja, para casa.
Quando morávamos no sítio, era uma vida rural, mas nossa casa tinha conforto igual aos das outras casas dali. No orfanato, até TV, que muita gente boa não tinha, nós tínhamos lá.
Eu e Nice ficamos muito decepcionadas com a casa de nossa mãe. Não tinha água encanada, energia elétrica e outras coisas mais.Ao deparar-me com a situação pensei em voltar para o Orfanato, mas não dava mais, não era possível voltar. Tivemos que enfrentar a nova vida. A água era buscada longe de casa e tinha que pedir à pessoas que nos deixassem pegar água em suas casas.
Na época de eleição, um candidato conseguiu que fosse colocado em frente à nossa casa que era em um morro (morro do Colé) um ponto de abastecimento de água para os moradores. Foi uma Benção, não precisávamos pedir e carregar água de longe para nossa casa.
Quando saí do Orfanato em um domingo, logo na segunda-feira já saímos à procura de emprego.
Nós nunca havíamos trabalhado e também não tínhamos nem experiência de vida.O Colégio era um mundo à parte. Só aquele mundo a gente conhecia.
O primeiro emprego apareceu mais ou menos um mês depois, era de vendedora de uma loja, onde já haviam muitas vendedoras, a Loja se chamava “A PETIZA”. Fiquei lá só uma semana . Fui despedida. Não dava conta de vender nada.
Continuei procurando emprego por mais alguns dias ou mês e encontrei uma ocupação numa firma que tinha poucos funcionários - Sociedade de Auxílio e Benefícios Estrela-. Esse emprego caiu do céu, pois o gerente queria uma pessoa que nunca tivesse trabalhado. Fiquei lá dois anos. Já havia adquirido experiência para outro emprego, que encontrei com facilidade.
Naquela época (1956) o mercado de trabalho era muito competitivo. Em todas as situações que enfrentei na vida até o ano de 1973, contava com a cobertura de oração de minha mãe, que era uma mulher simples, mas de muita fé em Deus. Uma serva do Senhor Jesus.
Nessa ocasião começaram aparecer os candidatos a namorados. Minha mãe via virtudes em todos eles. Queria que eu e Nice casássemos logo. Entre os candidatos apareceu um corajoso que foi falar com minha mãe e pedir para namorar. Chegamos até ao noivado. De todos aqueles que apareceram, o Jader, esse era o nome dele, era o pior caráter. Tinha a vida enrolada, filhos espalhados sem ter havido casamento e muito namorador. Quando descobri isso, pensei em como seria a minha vida com ele e decidi terminar o noivado. Quem ficou mais triste com o rompimento foi a minha mãe, pois gostava muito dele. Ele era agradável e bonito também. Eu sofri quietinha, mas não voltei atrás. Hoje sei que Deus tinha casamento melhor para mim.
Estudos, Seminário e Casamento
Terminado aquele noivado, resolvi começar, ou melhor, retornar aos estudos, não queria mais pensar em namoro ou casamento, e também queria melhorar a condição de minha família, que era precária. Pedi para minha mãe ver para mim um curso que pudesse fazer à noite. Ela foi falar com um pastor conhecido e que também era professor, Pastor Abdias D’Avila. Fui conversar com ele e ficou combinado que tomaria com ele aulas de português.
O pastor Abdias era uma pessoa especial e muito cautelosa. Tinha esposa e três filhos de 10, 8 e cinco anos. Dona Tatinha era o nome da esposa. Como muito tato ele foi me encaminhando. Os textos que passava para estudar eram de autores evangélicos, porém nunca me impôs ser crente ou aceitar a Cristo, embora fosse eu de família evangélica.
Eu, que fiquei, oito anos em um colégio espírita não tinha nada mais dos poucos ensinos bíblicos que recebi lá no interior. Estava também numa fase de rebeldia. Minha mãe queria que eu e Nice freqüentássemos aos cultos, mas eu achava tudo uma chatice. Até nos escondíamos para não ir à Igreja. Aos poucos o pastor Abdias foi introduzindo a Palavra de Deus nas aulas. Primeiro mandou ler o evangelho de João. Ele esperava que eu fizesse alguma pergunta a respeito do texto, o que não acontecia. Quando lia a Bíblia, fazia escondido dos familiares.
O pastor era professor do Seminário Evangélico Congregacional e me recomendou tomar aulas de inglês lá, no seminário. Lá, no Seminário, além das aulas de inglês, via também o português.
O pastor era pessoa culta e sábia, minha mãe era inculta, mas também era sábia. Minha mãe orava e o pastor falava comigo a respeito das verdades eternas.
No primeiro dia que fui ao Seminário para matricular, estava meio perdida procurando com quem falar. Dois rapazes vieram me dar informações, eram alunos que iam começar o curso para pastor. Os dois foram muito atenciosos, um deles se chamava Amaro, o outro não me lembro bem. Fiz amizade com o Amaro, que depois se tornou namorado, noivo e marido. Eu desisti das aulas de inglês, cursei apenas seis meses. O Amaro também desistiu de ser pastor. Acho que não era uma chamado de Deus e sim uma vontade humana.
Minha mãe ficou muito feliz por eu ter encontrão um namorado crente, era o que mais ela queria e pedia sempre a Deus. Amaro me encantava por sua maneira de ser. Era cavalheiro, atencioso e parecia não dar importância à minha condição menos favorecida socialmente. Depois de dois anos de namoro e noivado, nos casamos no dia 22/03 de 1958. O pastor Abdias que um ano atrás havia me batizado, celebrou o casamento também.
Novos empregos, vida de casada e chegada das filhas
Começou então uma nova fase em minha vida. Nessa época trabalhava numa indústria têxtil, Tecelagem Jonhan, onde recebia uma remuneração bem melhor que o emprego anterior.
Os donos da empresa eram muitos rigorosos em tudo. Somavam todos os minutos de atraso dos funcionários e descontavam no salário do mês. Todo esse rigor da empresa não me desanimava. Sempre me dei bem lá. Eles reconheciam os funcionários esforçados, e gratificavam a cada três meses. Naquela ocasião não havia ainda o bendito décimo terceiro salário, mas nós já o recebíamos.
Com dois meses de casada apareceu a primeira gravidez e eu passava muito mal, vomitava muito e tinha freqüentes náuseas. Pedi as contas do emprego, o que mais tarde me arrependi, porque com três meses tudo passou.
No dia 26 de fevereiro de 1959, ao anoitecer, nasceu a nossa primeira filha. Eu e amaro fizemos uma lista de 20 nomes de meninos e meninas. Decidimos chama-la de RANÚZIA. Cinco anos depois nasceu a MARLOW e dois anos de meio mais tarde nasceu a MARILANE. Entre Ranúzia e Marlow, perdi uma gravidez de mais ou menos três meses. Era menina também. O menino tão desejado por meu marido nunca chegou.
Formamos uma família bonita e feliz. Entre os erros e acertos procurei ser uma boa mãe, zelosa e esforçada. Tudo que fazemos pelos nossos filhos, pensamos ser sempre o melhor. Criamos nossas filhas nos caminhos do Senhor, carregando-as sempre conosco nas programações da Igreja. Depois do casamento deixamos a Igreja Congregacional e passamos para a Igreja Presbiteriana que era mais próxima de nossa residência. Eu e o Amaro cantávamos no coral e participávamos em outros setores.
Minha participação nos trabalhos na SAF só aconteceu aqui em Brasília
Mudança para Brasília e Concursos Públicos
Hoje, aos 67 anos, olho pra trás e vejo o quanto o Senhor cuidou de mim e teve paciência esperando o crescimento na fé. Pelo tempo que tenho de vida cristã – 49 anos, já era pra ser PHD na fé.
Agradeço muito a Deus por esse caminhar de 49 anos com Ele. No ano de 1971, o Amaro foi transferido para Brasília, ele era funcionário do Ministério das Comunicações. Nossa chegada aqui foi muito decepcionante. O caminhão que trazia a mudança sofreu um acidente na estrada, com os móveis, algumas peças estragaram . Ficamos um mês sem os móveis, dormindo e alimentando precariamente. Depois que tudo se acomodou, fomos nos acostumando e gostando de Brasília.
Hoje, não quero mudar daqui. Minhas filhas tinham 12, 7 e cinco anos, em 1971.
A vida aqui era bem diferente do Rio de Janeiro. O custo de vida era muito alto. O salário do marido não dava para cobrir as despesas. Pensei em trabalhar. No Rio sempre tive facilidade em arranjar trabalho, aqui era diferente, exigia-se escolaridade. Na minha primeira tentativa descobri que não tinha curso nenhum documentado. Comecei então a estudar, eu e meu marido. Comecei do be-a -ba. Curso Supletivo Primeiro e Segundo Grau. Fui muito abençoada por Deus, pois em menos de um ano já havia eliminado todas as matérias do primeiro e segundo grau e prestei vestibular no CEUB, em fins de 1973, com boa aprovação. Comecei a Faculdade em 1974.
De posse dos diplomas de nível médio as portas começavam a se abrir para concursos públicos. Fui aprovada em alguns (11 nesse nível).
Aqui em Brasília as dificuldades eram grandes, mas as oportunidades para quem tinha escolaridade eram melhores.
Aceitei o primeiro emprego aprovado em concurso pelo IDR (Instituto de Desenvolvimento de Recursos Humanos) do DF. Fui trabalhar no SLU. Antes eu havia trabalhado no Itamaraty por indicação de alto funcionário de lá. Estava locada no Gabinete de um Conselheiro, José Bonifácio de Andrada e Silva, pessoa de vasta cultura e igual humanidade. Observei naquela época que: quanto mais sábio é o ser humano, mais ele reconhece que não SABE. Assim era aquele Conselheiro. Quando aceitei ir para o SLU notei a grande diferença entre os dois órgãos públicos. No Itamaraty pisava em tapetes felpudos e recebia autoridades nacionais e internacionais. No SLU, o local onde fiquei no RJ (Regime Jurídico) eram três cômodos de alvenaria, com um banheiro coletivo e único, distante a uns 10 metros da nossa sala. Enfrentávamos a chuva para irmos ao banheiro. Aos poucos fui me acostumando e passei a gostar do local, e do serviço também. As chances de ascensão lá eram melhores até determinado ponto. Eu já cursava a faculdade e continuava fazendo concursos públicos. Fui aprovada com boa classificação pra o Tribunal de Contas do DF. Entrei lá em 1979 e fiquei até o ano de 1985.
No ano de 1984 fiz uma esterectomia retirando um mioma bem grande (aproximadamente 1.50 K) tinha cerca de doze cm por oito cm. A cirurgia correu normal e a recuperação também. Nesse mesmo ano, em Dezembro, apalpei um nódulo pequeno na mama esquerda. Eu tinha acabado de fazer exame preventivo de câncer e o médico não viu aquele nódulo. Foi retirado e pesquisado, e para susto de toda a família era um carcinoma (tumor maligno).
A partir dessa descoberta começou a via crucis para mim. Na minha família já havia casos da doença, mas a gente nunca espera que vá acontecer com a gente. Fiz sete sessões de quimioterapia e vinte e cinco de radioterapia. Aposentei por causa da doença, mas o médico nunca me falou que estava curada, embora eu cresse que sim.
O meu marido havia desistido do curso supletivo, ficou devendo cerca de três matérias. Como sempre acontecia, ele não conseguia terminar nada, embora fosse um homem muito inteligente, mais do que eu. Eu nunca tive um QI brilhante, mas sou perseverante naquilo que desejo, graças a Deus.
Também em 1984, as filhas já adultas e fazendo faculdade, minha vida em família e no trabalho corria com tranqüilidade e a paz que o Senhor Jesus nos dava.
Não me lembro de ter orado ao Senhor por um bom marido ou casamento, mas tenho certeza que minha mãe orava muito por esses motivos. Hoje sei pela vivência e experiência, que esses assuntos devem ter prioridade em nossas orações.
Meu casamento com o Amaro foi abençoado por Deus, apesar de eu não ter orado nesse sentido. Conheci o Amaro com 17 anos (segundo namorado) e casei aos 19 anos. Fomos agraciados com o nascimento de três filhas mulheres. Até hoje elas sãos bênçãos em nossas vidas. Sempre penso que toda mulher deve ter filhos, mesmo que eles venham dar trabalhos excessivos e preocupações no futuro. Isso faz parte do desenrolar da vida.
Ranúzia, minha filha mais velha casou-se com João Inácio e tem duas bênçãos de filhos: Matheus e Lucas, nessa data, com 20 e 19 anos de idade. Nunca pude imaginar que o Senhor Jesus me concedesse essa graça de ver netos com essa idade. O meu genro João também é uma benção na vida da família e também na vida da Igreja. Eu o amo muito e Jesus também.
Marlow é a segunda filha, também muito amada, como todas. Ela sempre foi muito independente desde criancinha.Tem dois filhos, Caetano e Emanuel. São crianças muito inteligentes, pelos quais tenho orado muito ao Senhor que os preserve do mal e desse sistema que aí está posto no maligno. Tenho muita fé e esperança que um dia a minha filha Marlow se volte UNICAMENTE para Jesus e crie seus filhos nos ensinamentos da Palavra de Deus. Talvez eu não tenha tempo para ver isso com os olhos materiais, mas verei espiritualmente e me alegrarei no Senhor, por isso.
Marilane é a terceira filha, muito amada do Senhor Jesus. Deus tem planos especiais para ela, talvez por isso ela seja a mais sofrida. Está sendo tratada por Deus para chegar no ponto que Ele quer que chegue. Têm sido muitas as disciplinas do Senhor na sua vida. Só comecei a entender isso faz pouco tempo, e por causa desse entendimento tenho sofrido menos e descansado no Senhor. Ela não casou ainda, mas tem três gracinhas de filhas: Fernanda, Rebeca e Letícia.
Fernanda que já vai completar 15 anos é uma criança especial com algumas limitações, não fala e se locomove com dificuldade. Na nossa família nunca tínhamos tido uma pessoa assim - deficiente. Quando a Fernanda nasceu quase entrei em pânico, pensando em como ajudar a cuidar dela. Cada exame que era feito não havia esperança de cura. O tempo foi passando, ela crescendo e lentamente foi melhorando. Das pessoas da família, eu era a mais inquieta com a situação da Fernanda. Orações e mais orações foram feitas pela cura da Fernanda. O Senhor não deu nenhuma resposta audível porém foi agindo devagar. Ele é o dono do tempo precisamos pensar nisso, e descansar NELE. Apesar da lesão cerebral, a Fernanda é muito inteligente e motivo de muita alegria na nossa família.
Como Deus não nos deixou a capacidade de ver o futuro como Ele vê, temos que viver por fé, e muita fé.
Deus na sua infinita sabedoria faz tudo certo. Glória a Deus.
Meu esposo sempre foi companheiro no cuidado com a Fernanda, estava sempre ajudando. Ficamos com a Fernanda em nossa casa até aos três anos de idade.
Nosso casamento era bom e comum como os demais casamentos. Participávamos dos trabalhos da Igreja Presbiteriana de Brasília onde sou membro até hoje.
Eu tinha planos de velhice bem vivida junto com meu esposo, os dois bem velhinhos, arrastando sandálias dentro de uma grande casa, cercada de Bungavilies, numa cidade do interior. Foram apenas planos e sonhos. Tudo acabou.
Dos antepassados e parentes
Quando cheguei ao mundo, meus avós maternos e paternos já eram falecidos.
Minha avó paterna era Ana Rodrigo de Gusmão e o avô João Rodrigo de Gusmão, ambos de descendência portuguesa e tiveram cinco filhos: Manuel , meu pai, Jacinto, Dionísio, Antônio e Maria.
A família trabalhava na Agricultura.
Minha avó materna era Rosa Bárbara de Jesus. Ela era negra e viveu no tempo da escravatura. Meu avô era Alexandrino Passeio Fogaça, de origem italiana que chegou ao Brasil para trabalhar na lavoura de café. Tiveram quatro filhos: Serselina (minha mãe); Eurípedes; Júlia e Pequena, cujo nome verdadeiro eu desconheço. A família de minha mãe se separou quando cada um casou e seguiu seu destino. Trinta anos depois, minha mãe encontrou todos eles, com exceção de tia Júlia que já havia falecido.
Logo após esses encontros meus tios faleceram. A tia Pequena, quando a conheci já estava com uma doença terminal.
Minha mãe faleceu em 1973. Tios por parte de pai e de mãe não existe mais nenhum.
Eu tive 11 irmãos: sete mulheres e cinco homens. Com os irmãos homens eu tive pouco envolvimento, pois cada um casou e seguiu seu destino. Já com as irmãs nosso relacionamento era melhor. Seus nomes: Flaviana, Gregota, Antônio, Alberto, Ana, Ermelinda, Domício, Elias, Laíde, Samuel, Onícia e Eu, Isabel.
Flaviana era a mais velha e eu gostava muito dela, apesar de sofrer na “sua unha” quando era criança.
Gregota era calma, tranqüila de pouca fala e muita oração. Era , o que se pode dizer, uma mulher de Deus.
Ana, eu tive pouco contato com ela. Depois que casou vivia mais para a família. Morreu cedo de câncer de mama. Deixou cinco filhos. Tinha um temperamento forte.
Ermelinda, essa irmã é muito amada por mim e pelo Senhor Jesus. Tem temperamento forte e vontade também. Muitos de nossos irmãos não gostavam muito dela. Deus não faz acepção de pessoas, por isso ela é uma serva de Deus. Está com 79 anos, pouca saúde, mas faz planos para o futuro. Ela faz parte do trio que ainda vive. Ermelinda, Onícia e eu.
Laíde, já falecida, era mansa e pacífica. Teve oito filhos e viveu vida muito dura. Passou por muitas dificuldades financeiras junto ao esposo Wilson e os oito filhos. Era uma serva do Senhor Jesus, muito amada.
Onícia, que eu chamo de Niça, é a que viveu mais tempo comigo. Ficamos oito anos no Colégio interno, depois morou lá em casa e depois casou com o Atílio.
Quando eu mudei para Brasília, ficamos mais afastadas. Só nos víamos de ano em ano quando dava para ir ao Rio.
Essa minha irmã é especial. Irmã duas vezes e amiga pra valer. Ela hoje é viúva do Atílio, com quem viveu tempos bons e ruins. Quase todos os sábados, ligo para ela, sinto muita saudade, e é com ela que falo mais de tudo. Comunico-me também com a Linda, a irmã mais velha, viva.
Das minhas irmãs, quatro eram estéreis, não tiveram filhos, mas a Ermelinda tem uma filha adotada e já é avó, ou quem sabe bisavó.
Nós os restantes oito irmãos ficamos para multiplicar a família. São muitos os sobrinhos espalhados naquele Rio de Janeiro. Sempre que vou lá, procuro vê-los para não perder o elo familiar.
No ano passado, 2004, fui ao Rio visitar muitas irmãs e parentes. Niça ia fazer uma esterectomia por isso fiquei mais tempo para cuidar dela. Quando já estava bem recuperada voltei para Brasília cheia de planos, muitos dos quais eu já havia colocado na presença de Deus, como visitar umas missões Evangélicas e quem sabe ficar lá por um tempo ajudando, pois tenho tempo disponível.
Essa idéia já estava em mim há três anos e sempre aparecia um impedimento. Mas dessa vez parecia tudo certo. Queria também ir à Cuba com a Missão Portas Abertas que sempre nos convida para entrar na comitiva de entrega de bíblias e haveres para o povo de lá.
Voltei para Brasília em 28 de Agosto de 2004.No dia 3 de Setembro , na parte da manhã senti uma forte dor no abdômen inferior que não passava com nada. Parecia ser uma crise de apendicite. Minha filha Marlow foi comigo na emergência do Hospital São Lucas, Lá, depois de muitos exames, como ecografia e tomografia suspeitou-se de um tumor no intestino.
Passados mais ou menos quatro dias, fui procurar uma proctologista – Doutora Waléria, para exames específicos, ou seja a Colonoscopia. Foram detectados nesse exame, um pólipo, um tumor pequeno benigno e um carcinoma já de grande proporção, quase fechando a passagem do intestino.
A cirurgia foi marcada para seis de outubro, depois de pronto os exames complementares.
Tudo foi bem na cirurgia, porém foi detectado que o fígado estava comprometido, com muitos nódulos espalhados, não sendo possível a sua retirada.
Coisa maravilhosa é estar nas mãos de Deus. Há 49 anos a minha vida não me pertence mais, ela é de Jesus. Essa certeza me deu paz em todo esse caminha recebendo notícias ruins. Primeiro vem o choque, depois o bálsamo aliviador do Senhor que tudo pode e tudo sabe. Louvado seja Deus.
Hoje estou fazendo Quimioterapia e outros tratamentos alopáticos, homeopáticos e alternativos, mas toda a minha fé está em Deus, pois ele pode curar usando tudo isso, ou NADA.
E pode também não curar. Qualquer que seja o resultado, dou Glórias a Deus, pois Ele é o dono da minha vida. Ele faz o que quer.
Muitas pessoas da minha Igreja e outros crentes acham que pensar como eu penso é falta de fé. Eu tenho fé em Deus e em Sua soberania. Quero estar no centro de Sua vontade e descansar Nele. Não vou brigar com Deus por causa da cura. Ele é Soberano. Pensar como eu penso me traz muita PAZ.
Estou fazendo a quimioterapia já numa segunda fase. A primeira não deu resultado bom. Os tratamentos são agressivos e invasivos, mas não são tão ruins como os antigos que fiz há vinte anos.
Nesses meus 67 anos de idade, acho, no meu entender, que uma parte da minha missão nesse mundo já foi cumprida, que é criar a família.
A outra parte que é fazer a obra do Senhor, estou em déficit. Algumas pessoas acham que a estou fazendo, mas o Senhor tem falado ao meu coração nesses últimos dias que estou ou estive fazendo muito pouco.
Eu naturalmente sou tímida e introvertida para falar do Evangelho salvador para as pessoas. Não tenho aproveitado as inúmeras oportunidades que aparecem. Isso é falta de unção. Preciso da plenitude do Espírito Santo em mim.
Sem a unção do Espírito a obra não pode ser feita. Tenho pedido muito a Jesus esse preencher, para que no tempo que me restar ainda, possa ser útil para o Seu serviço. Mais do que cura eu preciso da unção do Senhor e Santificação.
Nesses tempos de enfermidade, o Senhor tem me mostrado muitas falhas que devo consertar, arestas a aparar. Aceitar as pessoas como elas são, pois o Senhor Jesus não faz acepção de pessoas, mas nós, infelizmente fazemos.
Jesus morreu por todos, seja feio ou bonito, simpático ou não. Quero ver, enxergar cada irmão, pelo prisma de Jesus, até aquelas pessoas que nos trouxeram desgosto e prejuízo como o ex-marido e alguns genros. Tenho pedido muito a Deus pela vida (deles). Queria vê-los todos do lado direito de Deus no dia do JUÍZO. Ir para o fogo eterno? Ninguém merece.
Quanto a essas pessoas não tenho nenhuma mágoa.O Jesus me livrou de todas elas. Glória a Deus. Vivi casada com Amaro 38 anos e agora parece que nunca o conheci. A única lembrança que tenho são as filhas que tivemos. Se por acaso ele quisesse voltar para o meu convívio acho que não o aceitaria como marido. Depois da separação descobri que viver sem ele é muito bom. Ele era uma pessoa alegre, criativa, porém me trazia muitas preocupações.Gostava de viver perigosamente, ao contrário de mim que sou comedida e programada para tudo. O que não é planejado me estressa sobremaneira.
Ninguém entra nesse mundo por acaso. Deus tem um plano para cada um de nós. Nesse tempo de peregrinação aqui na terra, além de cumprir a missão que o Senhor nos deu, ainda somos tratados através de sofrimentos, tribulações e provações. Quando chegamos a entender isso, geralmente estamos no fim da carreira aqui. Eu passo pelos meus sofrimentos e também pelos sofrimentos da família: filhas, netos, etc. E assim vai ser com as filhas e os netos. É um moto-contínuo.
Em todas as gerações de nossa família Deus tem levantando pessoas intercessoras para ficar na brecha de oração. A primeira que conheci foi a minha mãe, pessoa simples, mas que tinha sabedoria e unção. Estava sempre orando por nós, sem nenhum estardalhaço. Quando ela faleceu, me senti órfã duas vezes, da mãe e da oração. Logo Deus estava levantando minha irmã Gregota, que a gente chamava de “Gota”. Ela também era uma pessoa simples, sem vaidade. Não era contaminada pelo consumismo, pelo ter. Nunca possuiu uma televisão, embora pudesse comprar. Sua vida era consagrada ao Senhor e de muita oração. Três vezes no dia se recolhia para falar com Deus a favor de muita gente sofrida. Quando sua saúde ainda era boa, costumava subir nos morros próximos à sua casa para levar a Palavra de Deus e mantimento para os necessitados. Ela ficou conhecida por isso, muita gente ia à sua casa pedindo oração.
Quando tinha mais ou menos 70 anos começou a sofrer do mal de Parkinson. Durante anos ela controlava o mal com medicamentos e exercícios, mas finalmente faleceu dessa doença aos 84 anos. Fiquei órfã outra vez, de oração.
Embora eu não seja como minha mãe e a Gregota, Deus tem me convocado para ficar na brecha de oração. Na minha família tem ainda muita gente para aceitar o sacrifício Salvador do Senhor Jesus. Estão vivendo como se essa vida não fosse acabar, comendo, bebendo, casando, separando, etc. Às vezes me aflijo com tanta indiferença dos meus queridos parentes, e clamo por eles ao Senhor.
Todos os sentimentos e palavras que eu possa pronunciar são insuficientes para agradecer a Deus pela Graça que ele nos concedeu da Salvação eterna em Cristo Jesus, Seu Filho.
Glórias a Deus por isso Amém.