Da multidão dos que creram

Lá pelos idos de 77, eu, um garoto de 14 anos recém-convertido ao Evangelho via descortinar-se diante de meus olhos um mundo ainda mais novo, agora potencializado por um encontro pessoal com Cristo, o próprio Criador de todas as coisas, reconhecidamente tornado meu Senhor e Salvador...

Nessa mesma época a música surgia como parte deste meu mundo de possibilidades e fé. Minha conversão deu-se num domingo à tardinha, após ouvir um estudo bíblico do qual não me lembro, mas que foi concluído com uma oração uníssona de aproximadamente 30 jovens numa sala abarrotada, seguida de uma canção singela, que no meu coração teve o efeito de uma bomba de graça e bondade arrasadoras... "há momentos em que as palavras não resolvem, mas o gesto de Jesus demonstra amor por nós...".

Alguns domingos depois já estava perfeitamente integrado na nova vida, fazendo parte de uma banda recém-formada de garotos da minha idade, ansiosos por servir do seu próprio jeito.

Nossas referências? Um grupo-missão chamado Vencedores por Cristo, que até ali havia nos brindado com duas autênticas pérolas fonográficas: "Se eu fosse Contar" e "Louvor", dando partida a uma autêntica revolução musical no meio cristão: o que poderíamos chamar de música cristã contemporânea, e brasileira.

É certo que o início é ainda tímido. São apenas algumas canções de autores brasileiros no meio de uma avalanche de versões. Mas com certeza estão ali lançadas as sementes de um verdadeiro avivamento no seio da juventude brasileira, o qual quase ninguém se dá conta de que está ocorrendo.

À frente da turma, um norte-americano com um enorme coração, o pastor Jaime Kemp, fundador de Vencedores. Com ele, um grupo de moços e moças cruza este país de norte a sul, cantando em igrejas, praças, prisões, teatros, rádios e TVs, onde lhes seja permitido. Dentre eles, um ex "rebelde sem causa", oriundo de uma família de classe média do interior de São Paulo, que passa a ser como que o mentor intelectual do grupo. As poucas canções brasileiras levam sua assinatura, além da maioria das versões. Ele também empresta a voz a alguns dos solos, bem como os acordes de violões e guitarras e um baixo original e "nervoso" (lembro-me das tardes de domingo dentro do fusca do meu pai que tinha um som potente tentando tirar as escalas malucas do contrabaixista de VPC...!).

Seu nome é Guilherme Kerr Neto

Ainda em 77, recebi em mãos e ouvi, juntamente com meus colegas de banda o "De Vento em Popa". A primeira audição trouxe à alma um misto de surpresa, perplexidade e êxtase ....de repente era como se os discos do MPB-4, Milton Nascimento, Ivan Lins entre outros tivessem se vestido de fé, inundando os corações com o que de melhor havia em nossa musica, valorizado ainda mais, agora pela mensagem velha porém eterna do Evangelho...foram momentos inesquecíveis, quando vibramos ante a constatação de que o que críamos tinha relevância e sentido para o nosso tempo e lugar. E lá estavam eles novamente: Nelson Bomilcar, Dimas Pezato, Sérgio Leoto, agora reforçados por novos (mas não menos talentosos) nomes como os de Gérson Ortega, Ed Chagas, Artur Mendes, Sérgio Pimenta e...é claro, à frente o Guilherme.

A partir daí, todas essas pessoas que mencionei entre outras tornaram-se definitivamente referenciais estéticos e espirituais para a minha vida e também da minha banda, como estou certo da de centenas, senão milhares espalhadas país afora.

Três anos depois, por um desses caminhos misteriosos de Deus, acabei por conhecê-los pessoalmente, desfrutar da amizade mais intima de alguns e constatar de perto que os meus referenciais tinham lastro, eram reais. Esta talvez tenha sido uma das constatações mais importantes para minha carreira musical e espiritual. Valia a pena perseverar...

Já em meados dos anos 80, Guilherme que agora era pastor tornou-se alguém mais próximo, primeiro convidando-me a fazer parte de um grupo de compositores na igreja, a fim de "conspirarmos" e trabalharmos juntos, depois tornando-se um parceiro, emprestando as palavras que faltavam às minhas melodias que àquela altura pipocavam.

Foram tempos de muito aprendizado, momentos preciosos de comunhão, alegria, diversão, viagens às profundezas da Palavra, tempo de Deus...

No final da década nossa convivência diminuiu de intensidade mas o amor cristão que sempre nos uniu tem crescido à medida em que vejo o quanto sua vida e de sua família tem sido instrumento de Deus para abençoar à minha e de minha família.

Guilherme não foi apenas o rebelde sem causa convertido ao evangelho que tinha talento para escrever e gravar canções. Deus o tem presenteado com muitos dons e habilidades com os quais tem abençoado a igreja brasileira (e mais recentemente outras partes do mundo). É um pregador de extrema profundidade, além de um artesão das palavras, responsável por livros, poemas e algumas das letras mais memoráveis do nosso cancioneiro. Como se não bastassem essas qualidades, tem se lançado à árdua tarefa de tocar uma produtora e editora, a GKerr, responsável por registrar parte de sua obra e de outros companheiros de luta.

Num país sem memória, cuja atitude reprovável nosso meio evangélico insiste em copiar, a trajetória de trabalho e vida do Guilherme é um exemplo a ser seguido.

Muitos o chamam entre outros de dinossauro da musica gospel. Não gosto deste título. Primeiro porque pode expressar um certo ar pejorativo. Dinossauros são animais extintos que fizeram parte de uma pré-história e que hoje só têm valor para efeito de pesquisa. Nada mais longe da verdade em se tratando de musica cristã contemporânea brasileira. O trabalho do Guilherme — tanto em retrospectiva quanto o atual — é de extrema relevância para a igreja e por que não dizer para o povo brasileiro, na medida em que é fundamentado na mensagem do evangelho, indo fundo em questões polêmicas como a injustiça social e o aborto, e em temas teológicos da maior importância como graça e cura, entre muitas outras abordagens.

De suas centenas de canções, como não se lembrar de

"...ah, como é bom poder aos pés da cruz depositar este meu fardo pesado árduo de carregar..."; (Mente e Coração - 1975)

Ou de clássicos como:

"Quando a glória do Senhor for vista por toda vista em todo lugar quando a glória se perder de vista como as águas cobrem todo mar..."; (Quando a glória - 1980)

Ou ainda,

"Ao amado de minh’alma cantarei fica bem cantar louvores a Jesus como sóis de intensidade em plena luz tal a glória do amado eu cantarei..." (Ao Amado - 1985)

Entre inúmeras outras....

Concluo dizendo sobre o "dinossauro" Guilherme, que ao contrário do que este apelido possa comunicar, sua contribuição maior à igreja e ao país ainda está por vir. Toda sua experiência musical, literária, missionária e pastoral há de influenciar e abençoar milhares por muitos anos. É meu desejo e minha oração, lembrando as palavras de Jesus: "Não foram vocês que me escolheram; pelo contrário, fui eu que os escolhi para que vão e dêem muito fruto..." João 15:16.

Jorge Camargo - 13/04/98